EU ME TORNEI ESTA PESSOA

Padrão

eu_e_papa_country_club_300_X_300[1]
Dependendo do quanto que as pessoas contavam ter custado um objeto, meu pai calculava analogicamente se daria para uma feira. Sabia o preço de todos os produtos de cor e eu não entendia como guardava tantos dados na cabeça.
Hoje, quando faço supermercado e feira, sei o quanto o preço dos produtos aumentou. Quando a cebola está cara uso alho poró; se o tomate italiano subiu tento ver se compensa trazer o cereja. “A dor ensina a gemer”, praticamente vejo meu pai falando na minha frente.
Ele não se adaptou ao mp4, mesmo podendo ter todas as músicas que quisesse n a hora que quisesse. Preferia o radinho. Usava fone que teimava em lhe sair do ouvido. Parava a varredura do apartamento para aumentar o volume da música que gostava. Ouvia AM.
Eu, rezo para que meu mp4 não quebre. Está indo para oito anos. Apanho no Spotify, irrito-me com comerciais, tanto ali como em outras plataformas. Prefiro mil vezes ao celular para ouvir de noite, principalmente as minhas músicas new age.
Meu pai gostaria, mas não podia ler o jornal diariamente, por questões de não ter grana para comprar. Quando o fazia, sempre checava o serviço de luto e dizia: “Fulano faleceu. A referência dele é menor que a minha, ele é mais novo do que eu. Que pena. Vou jogar no bicho amanhã”, se referindo ao número de registro na CODESP.
Raramente leio jornal físico, embora saiba que o conteúdo é melhor do que o gratuito na internet. E quando o faço, eis que… confiro o serviço de luto e infelizmente, registro falecimentos, missas de sétimo dia. Não são mais os pais de pessoas conhecidas. Por força da data de meu nascimento, já são as minhas pessoas conhecidas.
Não vejo referências na Codesp, mas sempre olho registro de OAB e CRM para ter uma ideia de quanto tempo milita o profissional.
Meu pai adorava receber para almoços, cuidava com muito carinho da comida e bebida. A casa, o lar, eram temas muito caros. Talvez no sentido mais amplo, pois ficava encarregado da documentação de campas da família (a última morada). Informava quando tinha ou alguma disponível ou a liberar por exumação. Com muita atenção arquivava estes documentos para que estivessem à mão “em uma dor de barriga”, dizia. Adivinhe com quem ficaram estes documentos, sendo eu filha única? Preciso responder?
Não recebo pessoas com todo o carinho como ele, principalmente no dia seguinte em que passei pano no chão, pois penso que irá sujar rápido novamente. Neste ponto, diferimos. Como em outros também.
Ele cozinhava com cara de quem brinca de casinha, gestos ritmados. Geralmente faço as coisas com tempo curto e corro um tanto. A semelhança é que deixamos cair muito os objetos no chão, as tampas das panelas ficam rodopiando feito as baianas de escola de samba.
Traço meu próprio caminho para a cada dia ser uma versão melhor de mim. Por outro lado, penso que Belchior continua atual de alguma maneira: “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
Ainda bem.

Com todo o meu amor para meu pai Irinaldo Ferreira

ACORDES QUE ACORDAM

Padrão

Acordes que acordam2

ACORDES QUE ACORDAM

Nova York, 1810. Verão, porém o quarto está frio para Kathleen.
A menina de dez anos puxa o lençol com as mãos gordinhas até o queixo fino. Aperta a boca rosada, nervosa, e em seguida os olhos verdes. Não quer ver e tampouco se fechar no escuro. Abre-os.
Para diminuir o frio que é apenas seu espalha a cascata de cabelos lisos e longos sobre os ombros.
O estômago alto levanta e abaixa a coberta por causa da respiração ofegante. Escorrega na cama e deita de lado.
Silêncio pesado. A orelha descoberta fica gelada em seu lóbulo grosso. Levanta a testa e sobrancelhas não lineares. A temperatura abaixa, abaixa mais naquele cômodo.
As narinas largas de Kathleen se abrem. Nem adianta pedir socorro enquanto a imagem vai se formando à frente do guarda-roupa. A avó, severa, beata, não acredita em visões. O padre advertiu a ambas que é o demônio imbuído de causar confusão. Absolveu-a mediante rezar quarenta Ave- Marias.
A pequena estátua da Virgem Maria na cômoda tem expressão de sofrimento. É justo rogar a quem também chora?
Mãos unidas em súplica inicia o terço sabendo nada adiantar. O mal, como que enganado, parece depois dar-se por si e retorna em três ou no máximo cinco noites, bagunçando os ensaios de soprano da menina no colégio de freiras.
As horas decorrem para duas distintas vivências. A conhecida aflição de Kathleen, que sabe se o sono for ruim, igual será o seu desempenho na aula de canto e maiores as rígidas admoestações da mestra.
Enquanto que em outro lugar, bem qualquer, uma figura feminina sorri triunfante, rodando com sua roupa de corte justo acima da cintura, decote quadrado e baixo, saias com anágua. Um traje que nega a si mesma estar puído, o qual acredita combinar com a coroa encardida nos cabelos desgrenhados. Comemora em taça imaginária sua afinação nos acordes que soam as notas do medo e perturbação dos incautos.

Crédito da foto: http://www.canstockphoto.com/ghost-of-young-bride-in-white-dress-and-42750768.html

Impotente

Padrão

Hoje de novo tentei
insisti no diálogo amistoso
na intercessão amiga
para soltar a trava
diante de quem prefere
segurar tabus
invocar a religião, a tradição
em detrimento de família
memória, afeto, teto e tanto

Escolhi o melhor tato
pontuei o trágico perigo
encontrei secura e revide:
não me importa o que você pensa

Lavo as mãos, triste

Impotente 030519

TRILHA DA CHUVA

Padrão

chuva

Despenca a chuva fim de tarde
Encharcados gente, ruas, sapatos
Nós
No perigo de estar ao relento
o café nos acolhe e aquece

Dias e noites prosseguem
Mensagens e áudios esticam encontros
Sob mais chuva
Virtual ou presencialmente

Chuva
Juntinho à sua voz no Whatsapp
Pela primeira vez sinto o coração
No inverno cantar
Nessa água que me lava
A dor antiga e misteriosa

Chuva
Você acenou com um encontro
Respiraçãozinha na semana chapada
Deve ter sido esse olhar pidão
Presente em mim desde sempre
É que o Nando lançou álbum novo
Como não ouvir com você?

Chuva
O inverno esse ano prolongou
Povo chiando horrores
Ansiando por praia e sol
Falo nada, é coisa tão minha
Tão cativamente minha
Quero não que pare a chuva
Trilha de papos em altas horas
Pano de fundo de nós dois.

Das gotas que escorrem no vidro
Fazemos imitação com as mãos
Ao conquistarmos territórios
Que homologamos um ao outro
Chuva de quentura e colorido
Creio que a esteja retendo
Não exatamente por si
Mas por você.

A falta do sólido

Padrão

A falta do sólido

Tomado o banho quentinho e o chá de camomila, abro um livro de Mia Couto.
Menos de cinco minutos fecho. Coloco uma playlist New Age para ouvir. Não adianta. Sincera demais para mentir a mim. Quero conversar, trocar ideias e impressões. Está ainda relativamente cedo.
Abro o Whatsapp e escrevo puxando papo para saber as novidades. Cinco pessoas respondem que está tudo bem e mandam emoticon de beijo. Somente uma linha. Não há tempo para os que se conhecem há tanto tempo. Por quanto tempo ainda nos manteremos amigos?
Gostaria de uma conversa que tivesse início, começo e fim. Geralmente ficamos pendurados no meio de uma narração, explicação, retomando horas ou até mesmo dias depois. Um leque de demanda ou entretenimento, fragmentando nossa atenção e relações.
O celular vem sendo como uma parte do corpo. No meio de um encontro, do nada, quebra-se a conversa ao meio e checa-se o aparelho. Estranhar é passar por implicante. Por certo, tivesse sido eu que tirasse um livro para ler um pequeno trecho, pensariam o quê? Chamariam de uma pausinha ou me acreditariam maluca?
Diariamente entro em rede social, mas não me permito ser arrastada como peixe fisgado. Peço licença quando preciso verificar algo no celular, pois se estou na companhia de alguém que dedicou um momento para mim, o mínimo que merece é que eu esteja inteira.
Percebo que as pessoas pararam de esperar. Bastam uns segundos aguardando que de pronto tomam o celular nas mãos. A apreciação do local, de transeuntes, da natureza, escutar o ambiente e a si próprio ficaram para trás. O que será que tem brotado dentro do ser quando colocado quieto e em silêncio?
Previsto por Zygmunt Baumam, os afetos estão se diluindo e me entristeço cada vez mais com este fato. Sinto falta de um bom café, almoço, filmes entre amigos. Não esporádicos, difusos, e sim quando havia vínculo. Amizade é valioso, o vínculo é maior: cria corpo.
É isso: corpo, calor, toque, sorriso, risada, olhar. Tem estado frio. Não sentem?
Parece que somente eu persisto em deixar um tempo para si, teimar em viver e equilibrar.
Terei de me acostumar, é uma realidade do milênio. Duro para quem foi adolescente nos anos 80, quando o telefone nos prolongava os relacionamentos, os papos iam até o finzinho, tinham gosto de quero mais e fazíamos acontecer.
Sinceramente? Detesto as frases: “a gente vai se falando” e “vamos combinar”. Não, a gente não vai se falar, nem vai combinar bosta nenhuma. É tão ridículo quanto querer transar e a pessoa lhe responder: “Legal, a gente vai se esfregando durante a semana”.
Em uma palestra do jornalista local Marcus Vinicius Batista, sempre sensível e ponderado, ouvi sobre os tempos atuais e tentar não ser ranzinza.
Eu tento, Marcus, mas está tão difícil…tão difícil…

FRESTAS

Padrão

Frestas

É tarde ensolarada de verão, para a qual temos nosso roteiro.
Nem lembro como e quando foi escrito, apenas que por nossas quatro mãos.
A intimidade começa nos primeiros minutos do crepúsculo. O olhar indica a peça de roupa da qual é para o outro se livrar.
Em pé, frente à janela nos conduzimos no espaço dentre os paineis da cortina.
Nossos corpos se enroscam e nus querem se azular. A cada profundidade de beijos nos fundimos e fazemos da Natureza nossa parceira em uma ménage-a-trois. Sentimos o acréscimo de especialidade que risca o momento e o céu com o surpreendente relâmpago.
Abro os olhos repentinamente e contemplo o teto.
Pela terceira vez o mesmo sonho neste 12 de Junho.
Desisto de dormir esta noite.
Sem saber direito o que farei de mim, começo por fechar a veneziana para não me molhar com a tempestade de fora.
Quanto a que trago comigo, permito-me dar vazão.

BUG

Padrão

BUG

Ver seu olhos brilhando por trás
da fumaça do incenso.
Olhar perto, confessar sentimentos
Ler você por dentro.

Provar um prato que preparou
Assistirmos filme que fundo lhe tocou
Conhecer melhor sua família
Vermos guia turístico da India.

Compartilhar momentos simples
Dizermos para que seria o brinde.
Divertirmos um ao outro
Ouvir Portishead juntinhos
Intercalar beijos e vinho.

Passeio em museu e Planetário
Uma balada no Studio Rock
Ficaram lugares vários
Esperando por nós.

Um tempo que faltou.

O raio de sol, a nuvem abrupta fechou.
Que vento da vida é esse
que arranca a flor do interesse?
Que ciclo lunar nos rodeia
e não desponta a lua cheia?

A minha atração, qual software zipa
em formato amizade definitiva?

Autoria: Luciana Ferreira