TRILHA DA CHUVA

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chuva

Despenca a chuva fim de tarde
Encharcados gente, ruas, sapatos
Nós
No perigo de estar ao relento
o café nos acolhe e aquece

Dias e noites prosseguem
Mensagens e áudios esticam encontros
Sob mais chuva
Virtual ou presencialmente

Chuva
Juntinho à sua voz no Whatsapp
Pela primeira vez sinto o coração
No inverno cantar
Nessa água que me lava
A dor antiga e misteriosa

Chuva
Você acenou com um encontro
Respiraçãozinha na semana chapada
Deve ter sido esse olhar pidão
Presente em mim desde sempre
É que o Nando lançou álbum novo
Como não ouvir com você?

Chuva
O inverno esse ano prolongou
Povo chiando horrores
Ansiando por praia e sol
Falo nada, é coisa tão minha
Tão cativamente minha
Quero não, que pare a chuva
Trilha de papos em altas horas
Pano de fundo de nós dois.

Das gotas que escorrem no vidro
Fazemos imitação com as mãos
Ao conquistarmos territórios
Que homologamos um ao outro
Chuva de quentura e colorido
Creio que a esteja retendo
Não exatamente por si
Mas por você.

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A falta do sólido

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A falta do sólido

Tomado o banho quentinho e o chá de camomila, abro um livro de Mia Couto.
Menos de cinco minutos fecho. Coloco uma playlist New Age para ouvir. Não adianta. Sincera demais para mentir a mim. Quero conversar, trocar ideias e impressões. Está ainda relativamente cedo.
Abro o Whatsapp e escrevo puxando papo para saber as novidades. Cinco pessoas respondem que está tudo bem e mandam emoticon de beijo. Somente uma linha. Não há tempo para os que se conhecem há tanto tempo. Por quanto tempo ainda nos manteremos amigos?
Gostaria de uma conversa que tivesse início, começo e fim. Geralmente ficamos pendurados no meio de uma narração, explicação, retomando horas ou até mesmo dias depois. Um leque de demanda ou entretenimento, fragmentando nossa atenção e relações.
O celular vem sendo como uma parte do corpo. No meio de um encontro, do nada, quebra-se a conversa ao meio e checa-se o aparelho. Estranhar é passar por implicante. Por certo, tivesse sido eu que tirasse um livro para ler um pequeno trecho, pensariam o quê? Chamariam de uma pausinha ou me acreditariam maluca?
Diariamente entro em rede social, mas não me permito ser arrastada como peixe fisgado. Peço licença quando preciso verificar algo no celular, pois se estou na companhia de alguém que dedicou um momento para mim, o mínimo que merece é que eu esteja inteira.
Percebo que as pessoas pararam de esperar. Bastam uns segundos aguardando que de pronto tomam o celular nas mãos. A apreciação do local, de transeuntes, da natureza, escutar o ambiente e a si próprio ficaram para trás. O que será que tem brotado dentro do ser quando colocado quieto e em silêncio?
Previsto por Zygmunt Baumam, os afetos estão se diluindo e me entristeço cada vez mais com este fato. Sinto falta de um bom café, almoço, filmes entre amigos. Não esporádicos, difusos, e sim quando havia vínculo. Amizade é valioso, o vínculo é maior: cria corpo.
É isso: corpo, calor, toque, sorriso, risada, olhar. Tem estado frio. Não sentem?
Parece que somente eu persisto em deixar um tempo para si, teimar em viver e equilibrar.
Terei de me acostumar, é uma realidade do milênio. Duro para quem foi adolescente nos anos 80, quando o telefone nos prolongava os relacionamentos, os papos iam até o finzinho, tinham gosto de quero mais e fazíamos acontecer.
Sinceramente? Detesto as frases: “a gente vai se falando” e “vamos combinar”. Não, a gente não vai se falar, nem vai combinar bosta nenhuma. É tão ridículo quanto querer transar e a pessoa lhe responder: “Legal, a gente vai se esfregando durante a semana”.
Em uma palestra do jornalista local Marcus Vinicius Batista, sempre sensível e ponderado, ouvi sobre os tempos atuais e tentar não ser ranzinza.
Eu tento, Marcus, mas está tão difícil…tão difícil…

FRESTAS

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Frestas

É tarde ensolarada de verão, para a qual temos nosso roteiro.
Nem lembro como e quando foi escrito, apenas que por nossas quatro mãos.
A intimidade começa nos primeiros minutos do crepúsculo. O olhar indica a peça de roupa da qual é para o outro se livrar.
Em pé, frente à janela nos conduzimos no espaço dentre os paineis da cortina.
Nossos corpos se enroscam e nus querem se azular. A cada profundidade de beijos nos fundimos e fazemos da Natureza nossa parceira em uma ménage-a-trois. Sentimos o acréscimo de especialidade que risca o momento e o céu com o surpreendente relâmpago.
Abro os olhos repentinamente e contemplo o teto.
Pela terceira vez o mesmo sonho neste 12 de Junho.
Desisto de dormir esta noite.
Sem saber direito o que farei de mim, começo por fechar a veneziana para não me molhar com a tempestade de fora.
Quanto a que trago comigo, permito-me dar vazão.

BUG

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BUG

Ver seu olhos brilhando por trás
da fumaça do incenso.
Olhar perto, confessar sentimentos
Ler você por dentro.

Provar um prato que preparou
Assistirmos filme que fundo lhe tocou
Conhecer melhor sua família
Vermos guia turístico da India.

Compartilhar momentos simples
Dizermos para que seria o brinde.
Divertirmos um ao outro
Ouvir Portishead juntinhos
Intercalar beijos e vinho.

Passeio em museu e Planetário
Uma balada no Studio Rock
Ficaram lugares vários
Esperando por nós.

Um tempo que faltou.

O raio de sol, a nuvem abrupta fechou.
Que vento da vida é esse
que arranca a flor do interesse?
Que ciclo lunar nos rodeia
e não desponta a lua cheia?

A minha atração, qual software zipa
em formato amizade definitiva?

Autoria: Luciana Ferreira
 

 

 

Rito

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Apaga a luz

Deixe o quarto em penumbra

Onde eu possa ver teus olhos

Magnéticos de lua

 

Seja teu corpo, lençol

Estendido em pernas e ventre

Passeiem em meu pescoço

Nariz, boca e dentes

 

Mãos que deslizem calor

Lavas em lânguida investida

Aos paralelos e meridianos

De minha erogenia

 

Os joelhos por ti afastados

Encontrem cremosidade e cheiro

Escritos de penetração

Convite em teu quadril, leio

 

Aberto o reino dos sentidos

Com a aríete do teu falo

Suspiro

Indico

Ordeno

Grito.

 

Por fim me calo.

Rito

Créditos foto: http://biowoohoo.blogspot.com.br/2011/02/orgasmo-feminino.html

APENAS NÃO

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Helelu aceitou tentar a vida com a família nos Estados Unidos. O governo Collor havia confiscado o dinheiro suado economizado e guardado na poupança. O emprego do marido na estatal foi-se embora com as privatizações. Tinham três filhas para criar. Os cunhados estavam na América e incentivavam contando as vantagens.

Mudaram-se.

O frio de temperatura negativa tomou o lugar da prainha nos fins de semana. As rodas de samba e socialização fácil ficaram nas lembranças frente ao distanciamento imposto pelos americanos. Nada de vir a tal da melhora econômica. Angústia e medo ocupavam a despensa enquanto esta ia se esvaziando de mantimentos. A raiva do stress do marido ser descarregado no sexo egoísta era o que preenchia o novo lar.

Os cunhados puseram lenha na fogueira para a imigração e deixaram para que a família a mantivesse acesa.

Helelu se viu ansiosa em estreitar laços com Hugo, o vizinho imigrante. Gentil, de fala suave, estabelecido, simpático. No entanto, casado. Até aí Helelu se ateve.

Depois, perdendo a autopercepção e coordenação de emoções, deu-se por si apenas quando no quinto encontro foi flagrada com Hugo em ato íntimo. A esposa do outro, desconfiada, foi pragmática e armou o flagrante na presença do marido de Helelu.  Não foi difícil, estavam na cama de Hugo, contra o qual não houve voz acusatória.

Em casa, Helelu foi chamada de puta antes de se explicar. E mais ainda quando começou a dizer que Hugo ajudava com despesas que garantiram o último mês.

“E quem dá o corpo por dinheiro não é puta?” Não foi a réplica do marido e sim a pergunta da filha de catorze anos. Aquela que quando bebê apenas tomava leite na mama esquerda. Não havia dado tempo de preparar a conversa. A menina estava com um caroço suspeito no mesmo lado.

As comédias de adultério tem o velho bordão “não é o que você está pensando”.

Era exatamente assim.

Apenas não era cômico.

Apenas não

 

Resenha filme Moonlight

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Para quem aprecia filme denso em cenas sutis, Moonlight é uma boa pedida. O emaranhado que se forma quando se reúne pobreza, drogas, a descoberta da vida e de si mesmo, aos olhos de uma criança, vão tecendo tanto a construção como a destruição e regeneração dos personagens. É um filme que mostra a crueldade dessa realidade, mas de maneira delicada e sensibilizadora. Agora entendo porque você, Walkenes Lagares, pessoa sensível e de estética apurada, frisou que eu não deixasse de assistir.