Rito

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Apaga a luz

Deixe o quarto em penumbra

Onde eu possa ver teus olhos

Magnéticos de lua

 

Seja teu corpo, lençol

Estendido em pernas e ventre

Passeiem em meu pescoço

Nariz, boca e dentes

 

Mãos que deslizem calor

Lavas em lânguida investida

Aos paralelos e meridianos

De minha erogenia

 

Os joelhos por ti afastados

Encontrem cremosidade e cheiro

Escritos de penetração

Convite em teu quadril, leio

 

Aberto o reino dos sentidos

Com a aríete do teu falo

Suspiro

Indico

Ordeno

Grito.

 

Por fim me calo.

Rito

Créditos foto: http://biowoohoo.blogspot.com.br/2011/02/orgasmo-feminino.html

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APENAS NÃO

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Helelu aceitou tentar a vida com a família nos Estados Unidos. O governo Collor havia confiscado o dinheiro suado economizado e guardado na poupança. O emprego do marido na estatal foi-se embora com as privatizações. Tinham três filhas para criar. Os cunhados estavam na América e incentivavam contando as vantagens.

Mudaram-se.

O frio de temperatura negativa tomou o lugar da prainha nos fins de semana. As rodas de samba e socialização fácil ficaram nas lembranças frente ao distanciamento imposto pelos americanos. Nada de vir a tal da melhora econômica. Angústia e medo ocupavam a despensa enquanto esta ia se esvaziando de mantimentos. A raiva do stress do marido ser descarregado no sexo egoísta era o que preenchia o novo lar.

Os cunhados puseram lenha na fogueira para a imigração e deixaram para que a família a mantivesse acesa.

Helelu se viu ansiosa em estreitar laços com Hugo, o vizinho imigrante. Gentil, de fala suave, estabelecido, simpático. No entanto, casado. Até aí Helelu se ateve.

Depois, perdendo a autopercepção e coordenação de emoções, deu-se por si apenas quando no quinto encontro foi flagrada com Hugo em ato íntimo. A esposa do outro, desconfiada, foi pragmática e armou o flagrante na presença do marido de Helelu.  Não foi difícil, estavam na cama de Hugo, contra o qual não houve voz acusatória.

Em casa, Helelu foi chamada de puta antes de se explicar. E mais ainda quando começou a dizer que Hugo ajudava com despesas que garantiram o último mês.

“E quem dá o corpo por dinheiro não é puta?” Não foi a réplica do marido e sim a pergunta da filha de catorze anos. Aquela que quando bebê apenas tomava leite na mama esquerda. Não havia dado tempo de preparar a conversa. A menina estava com um caroço suspeito no mesmo lado.

As comédias de adultério tem o velho bordão “não é o que você está pensando”.

Era exatamente assim.

Apenas não era cômico.

Apenas não

 

Resenha filme Moonlight

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Para quem aprecia filme denso em cenas sutis, Moonlight é uma boa pedida. O emaranhado que se forma quando se reúne pobreza, drogas, a descoberta da vida e de si mesmo, aos olhos de uma criança, vão tecendo tanto a construção como a destruição e regeneração dos personagens. É um filme que mostra a crueldade dessa realidade, mas de maneira delicada e sensibilizadora. Agora entendo porque você, Walkenes Lagares, pessoa sensível e de estética apurada, frisou que eu não deixasse de assistir.

QUENTES E FRIAS  

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O ambiente está envolvido por cores diversas, quentes e frias, como as emoções desses anos 90, quando o namoro deu lugar para o ficar.

Jessica e Igor dançam com sorriso fácil, amplo, acompanhado da cabeça caindo para o lado ou para trás. Os olhos não conseguem ficar muito abertos, o álcool ingerido traz leveza em ideias, mas as pestanas pesam um pouco.

Os olhares se cruzam ao som de “You make me feel brand new”, portal de quando foi o primeiro beijo dos dois. Lembranças quentes e frias.

Igor cruza os dez passos de distância com o verde de sua íris cravando a atenção em todos os detalhes do rosto de Jéssica, que brinca vagarosamente com o anel na mão. Tragada, toma lentamente mais um gole de nem sabe mais o que, qualquer coisa serve para tampar um pouco o rosto. Igor molha a boca insinuando o que poderiam fazer juntos. Pisca, maroto. Morde os lábios. Mais lembranças quentes e frias se desenrolam.

O primeiro beijo regado a amasso, carinho e olhares de rosto grudado. Telefonemas inacabáveis com unhas roídas de Jéssica. Encontros sobre o tapete macio de caminhadas, abraçados, com as mãos de Igor em inevitáveis entrelaçamentos. Encontro desmanchado sem amargor diante da gentil justificativa de Igor, pena que caída por terra diante do comentário ingênuo de terceiros. Uma explicação cheia de gagueira gentilmente interrompida pelos dedos de Jéssica pousados na boca dele. De resto ficou a saudação gestual, distante, nas próximas vezes que se viram.

No entanto, agora, os passos de ambos, inadvertidamente, dão-se em direção um do outro. Faltam apenas dois.

Os DJ’s muitas vezes lançam estopins para desafetos discotecários. “Live to tell soa e lembra Jéssica que “Um homem pode contar um monte de mentiras/ Aprendi bem a lição”.

Ela estanca. Convida Igor a continuar, comprimindo a boca insinuando a osculação. Sensações quentes ao longo da faixa. É preciso deixa-lo confiante e relaxado.

Virada de clima na pista. “When doves cry” se espalha como a bebida que Jéssica entorna na nuca, costas e glúteo de Igor.

Confuso, ele busca o banheiro para se limpar, até que chega o trecho que Prince canta: “Por que nós brigamos tanto um com ou outro/Esse é som que faz quando as pombas choram”.

 

 

 

ASSIM ERA VOCÊ

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Assim era você

Vassoura na mão

Rádio no fone de ouvido

Um enorme coração

Para esposa, filha, irmãos e sobrinhos.

 

De futebol, adorador

De algumas pessoas, imitador

Algumas vezes só observava

Sucinto e certeiro com palavras.

 

Não era de se desanimar.

Se via a chapa quente em algum lugar

O clima tenso quebrava

Dizia: “só vim aqui trazer uma carta”

Ou então recomendava:

“cuidado que a tua batata assa”.

 

Quando criança me dava o recado

“Cuidado que o jacaré te abraça”

Anúncio de surra que me emendava

Só de olhar eu já respeitava.

 

Aos 40 comprou uma cinquentinha

Aquela moto rodou muito

Mas o que mais curtiu foi o fusquinha

9692, que chamava de Urso.

 

Quando aposentou foi homenageado

Com placas, e merecidamente

Era trabalhador, bom colega e amado

Onde se fazia presente

Desde criança era doce e bonzinho

E para a família era o “Tatinho”.

 

Na Codesp era Guarda Belo

Na várzea, Pezinho

Esse homem forte e singelo

Sabia ser bom amigo

Quando partiu de muitos ouvi

“Era como um irmão para mim”

 

A artrose lhe trouxe muita dor

Mas nunca ofuscou o amor

Ou a disposição de ajudar

Um caranguejo preparar

Pintar a casa, ajudar em mudanças

Embora de noite tivesse câimbras.

 

A saudade é grande em nosso meio

Ainda que haja anos de teu passamento

Mas teu amor e ensinamentos

Ressoam em nosso peito.

 

Homem mais lindo que conheci

Assim eu lhe dizia

E você sorria

Agora ao lado de cada estrela

Se encontra e brilha

Que Deus te abençoe, pai

Por ter me recebido como filha.foto0103

Resenha filme Mulher Maravilha

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Tenho me aproximado do universo dos super-heróis, tímida, desajeitada e um tanto descrente de satisfação. Fui simplesmente arrebatada por Mulher Maravilha.

As origens da personagem, que remontam ao “tempo em que a História era apenas sonho”, na linguagem do próprio filme, esse adorável link com a Mitologia, levou-me a uma experiência que curto em cinema: encantamento.

Mulher Maravilha arrebenta com o padrão de vulnerabilidade feminina à espera do homem forte salvador, quando desce ao fundo do mar e arrebata um soldado, emergindo d’água com a força vista nos foguetes espaciais.

Os conflitos humanos comuns da mãe que retarda o crescimento do filho, a tia que transfere os anseios maternos para a sobrinha, a descoberta do encanto e da crueldade do mundo enquanto ser em amadurecimento vão se revelando a cada olhar da atriz Gal Gadot, cujo personagem de pouca fala, mas forte senso de honra e justiça exigiu competência. Gadot é deslumbrante na beleza generosa bem captada nos closes e dose interpretativa de emoção na medida certa.

A estupidez da guerra e a velha discussão de onde reside o mal, se dentro do homem ou por influência externa deixam um rico viés de discussão no ar.

Efeitos pra lá de especiais conferem um espetáculo de cores e sensações durante as lutas, sem nenhum exagero de violência gratuita, hoje infelizmente comum nas telas. A fotografia é colírio para os olhos.

Um filme completo. E acima de tudo, de empoderamento feminino.

Minha cria

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O fruto no ventre

Sagrada semente

que se desenvolve

mas não se completa

E também não morre.

 

Um feto ou embrião?

Quantos noves meses passados

e não vem ao mundo

Como queria

ver o rostinho

beijar e rir dos pezinhos

orgulhar-me e falar:

Eu que fiz

E ouvir que é minha cara.

 

Entra ano e acaba

E mais do mesmo

Noites sem posição para dormir

pés inchados com o peso

a luta por uma vida

para que não seja perdida.

 

Duas décadas de gestação

Ansiando amamentação

os primeiros dentinhos e passos

e o doce desenrolar dos dias

Até que eu olhe para trás

Respire fundo e diga:

Que bela cria, a minha.

Minha cria